Admito que sempre tive uma certa implicância totalmente imotivada por Paulo Freire. Talvez, à moda rodrigueana, por não admitir unânimidades; talvez por tanto ter ouvido dele nas aulas que minha mãe preparava para as suas pobres alunas do então curso "Normal". Qual não foi, portanto, minha surpresa ao abrir as páginas de "Pedagogia da Autonomia - Saberes Necessários para a prática educativa" e encontrar uma faceta de Freire que eu jamais havia ouvido falar: a do existencialista.
Para quem entrou agora no ônibus, o Existencialismo foi (é) uma doutrina filosófica que predominou na Europa do pós-guerra, com origens nas obras de Kierkegaard e Heidegger, tendo seu ápice na literatura de Jean Paul Sartre. A doutrina prega que o homem chega ao mundo de forma inacabada e, através da sua existência, constrói a sua essencia, aquilo que o torna humano. E essa construção se dá justamente por estar no mundo, em conflito com o outro. O homem é, assim, o ponto de partida e de chegada de toda reflexão existencialista.
Na "Pedagogia da Autonomia" Freire encampa algumas das teses existencialistas (pesquisando descobri que estão presentes também na "Pedagogia do Oprimido"). Por exemplo, ao falar da importância, para o ato de ensinar, dessa consciência do inacabamento do ser, o educador ressalta: " A consciência do mundo e a consciência de si inacabado necessariamente inscrevem o ser consciente de sua inconclusão num permanente movimento de busca". Ao discorrer sobre ética, diz: "...falo dá ética universal do ser humano da mesma forma como falo de sua vocação ontológica para o ser mais, como falo de sua natureza constituindo-se social e historicamente não como um "a priori" da História".
A partir da constatação de que o Existencialismo foi marcante na obra de Freire em questão, resolvi fazer uma pesquisa e dei com um excelente trabalhinho dos professores Abdeljalil Akkari, Peri Mesquida e Regina Valença, publicado na Revista Diálogo Educacional, de Curitiba, chamado "Prolegômenos para uma prática educativa existencialista". No texto, os autores identificam aquilo que seriam as implicações dessa doutrina para a reflexão e a prática pedagógicas. Num resumo breve, diríamos que, numa abordagem pedagógico-existencial, o aluno, sendo um ser em construção, se torna o centro da ação pedagógica, que deve respeitar a sua individualidade. Cabe ao professor estabelecer um diálogo com o "outro" - aluno - ensinando-o a usar sua liberdade para escolher como deve aprender. O estudante se transforma assim, de espectador, em ator do drama da aprendizagem.
A conclusão do artigo é que o pensamento existencialista está presente na teoria freiriana da educação, não de forma pura, mas mesclado com idéias da fenomenologia e da diálética marxista.
É possível fazer um download da "Pedagogia da Autonomia" e de outras obras de Freire no site www.sabotagem.revolt.org e o artigo sobre a educação existencialista está disponível em http://www2.pucpr.br/reol/index.php/DIALOGO?dd1=805&dd99=view. Para uma visão crítica sobre as posições de Jean Paul Sartre em relação à educação, recomendo o excelente artigo de Bonnie Burstow, "A filosofia sartreana como fundamento da educação", publicado em
http://www.scielo.br/pdf/es/v21n70/a07v2170.pdf .
quarta-feira, 27 de junho de 2007
terça-feira, 19 de junho de 2007
DEVER DE CASA
Lugar de confissão é na igreja. Como sou avesso a igrejas, a conclusão é meio óbvia. Por isso não ia tocar no assunto, mas dever de casa é dever de casa... A Beth pede que sigamos com as discussões sobre a técnica GO e GV (Grupo Observação/Grupo Discussão), utilizadas na última aula de didática. Pois bem, aqui vai: ODIEI.
Se o objetivo da aula foi ensinar o uso da técnica, aplausos. Agora, eu não consigo encaixá-la nas disciplinas que domino o suficiente para ensinar. E também não imagino como um professor de "hard science" - ou mesmo de algumas das humanidades, como História, Geografia, línguas, consiga obter algum progresso didático com a prática. Talvez dê certo para Filosofia, Artes, ou coisas parecidas, que são ciências bem mais subjetivas. Mas subjetividade tem limites e, no mundo real, as outras pessoas não estão interessadas no que eu acho, mas sim em quem eu me apóio para achar alguma coisa. Por isso conhecimento científico é essencial e há pouco espaço para ele na utilização dessas técnicas de discussão, que derivam, inevitavelmente, para o "achismo".
Minha irritação pode até ter origens psicanalíticas. Talvez pelo fato de ser filho único de mãe filha única, nunca consegui lidar bem com os trabalhos de grupo. Isso não quer dizer que, na minha modesta avaliação narcisista, seja incapaz de trabalhar em equipe. Pelo menos até agora nunca tive nenhum tipo de problemas com isso. Aliás, ao procurar uma boa definição para a diferença de trabalho em grupo para trabalho em equipe, dei com um bom artigo da psicóloga Maria Inês Felippe, especialista em recursos humanos.
Lá (o link é http://www.melhorias.com.br/artigos/1006201.html) ela resume: "O trabalho em equipe é um trabalho de grupo com alto desempenho, onde seu potencial geralmente é grande e precisa ser bem administrado, pois necessita obter uma participação mais objetiva, alcançando altos estágios de desempenho ou seja, ultrapassando os modos tradicionais".
Apresentem-me, portanto, uma técnica didática que utiliza o trabalho em equipe, e prometo ser bem mais complacente.
Se o objetivo da aula foi ensinar o uso da técnica, aplausos. Agora, eu não consigo encaixá-la nas disciplinas que domino o suficiente para ensinar. E também não imagino como um professor de "hard science" - ou mesmo de algumas das humanidades, como História, Geografia, línguas, consiga obter algum progresso didático com a prática. Talvez dê certo para Filosofia, Artes, ou coisas parecidas, que são ciências bem mais subjetivas. Mas subjetividade tem limites e, no mundo real, as outras pessoas não estão interessadas no que eu acho, mas sim em quem eu me apóio para achar alguma coisa. Por isso conhecimento científico é essencial e há pouco espaço para ele na utilização dessas técnicas de discussão, que derivam, inevitavelmente, para o "achismo".
Minha irritação pode até ter origens psicanalíticas. Talvez pelo fato de ser filho único de mãe filha única, nunca consegui lidar bem com os trabalhos de grupo. Isso não quer dizer que, na minha modesta avaliação narcisista, seja incapaz de trabalhar em equipe. Pelo menos até agora nunca tive nenhum tipo de problemas com isso. Aliás, ao procurar uma boa definição para a diferença de trabalho em grupo para trabalho em equipe, dei com um bom artigo da psicóloga Maria Inês Felippe, especialista em recursos humanos.
Lá (o link é http://www.melhorias.com.br/artigos/1006201.html) ela resume: "O trabalho em equipe é um trabalho de grupo com alto desempenho, onde seu potencial geralmente é grande e precisa ser bem administrado, pois necessita obter uma participação mais objetiva, alcançando altos estágios de desempenho ou seja, ultrapassando os modos tradicionais".
Apresentem-me, portanto, uma técnica didática que utiliza o trabalho em equipe, e prometo ser bem mais complacente.
MUITO ALÉM DAS COTAS
Mesmo antes da morte da Fernanda a tarefa de acompanhar os exercícios de casa da Júlia sempre foi parte do que me cabia no latifúndio do casamento. Depois que fiquei sozinho com as crianças fiz disso minha obrigação diária. Aliás, obrigação talvez não seja a palavra correta. Tenho prazer em acompanhar o dia a dia de estudos dela no terceiro ano, pois Gabriel ainda está no maternal e tem poucas tarefas. E uma das atividades que mais me encanta é a execução da "Ficha de Leitura" nos fins de semana.
Pois bem, no último domingo Júlia me apresentou ao "Menina Bonita do Laço de Fita", de Ana Maria Machado. O livro, como todos os outros da escritora infantil, é uma pequena obra prima, abordando a questão racial através do relacionamento entre uma menininha negra e um coelhinho branquinho, que inveja sadiamente a cor da pele dela. Daí as primeiras linhas do livro: "Menina bonita do laço de fita, qual é o teu segredo pra ser tão pretinha?A menina não sabia, mas inventou:-Ah, deve ser porque eu comi muita jaboticaba quando era pequenina."
Lá se vão mais de trinta e quatro anos desde a minha iniciação na literatura brasileira para crianças, feita no então Centro de Ensino Integrado Pedro II, o Cenip, colégio público de Petrópolis. Lembro que um must da minha infância foi o "Gato Malhado e Andorinha Sinhá", de Jorge Amado, que já tratava do relacionamento entre seres diferentes. De resto não me recordo de muitos livros, à época que tivessem temática assemelhada. Talvez por isso louve tanto a autora nessas linhas.
No entanto, não creio que nenhum aluno de escola pública precise ler o livro de Ana Maria Machado para chegar à conclusão de que a cor da pele ou a origem social são (ou deveriam ser) absolutamente irrelevantes nas relações interpessoais. Se compartilhar a carteira (e muitas vezes a cadeira) com o outro não chega a ser construtivo do ponto de vista didático, do ponto de vista humano mostra que a tolerância com a diferença é impositiva na vida.
Espero que a minha loirinha, aluna de uma cara escola particular desta ilha da fantasia que chamamos de Capital, também não tenha precisado do livro da Ana Maria Machado para concluir isso, apesar de na sua sala não haver nenhuma pessoa negra. Pelo menos sempre fiz questão de relembrar a ela a sua origem "vira-lata" - bisneta de uma negra pelo lado paterno e uma alemã pelo lado materno, entre outras miscigenações familiares que não vêm ao caso. Tomara que ela tenha aprendido essa lição de casa.
Pois bem, no último domingo Júlia me apresentou ao "Menina Bonita do Laço de Fita", de Ana Maria Machado. O livro, como todos os outros da escritora infantil, é uma pequena obra prima, abordando a questão racial através do relacionamento entre uma menininha negra e um coelhinho branquinho, que inveja sadiamente a cor da pele dela. Daí as primeiras linhas do livro: "Menina bonita do laço de fita, qual é o teu segredo pra ser tão pretinha?A menina não sabia, mas inventou:-Ah, deve ser porque eu comi muita jaboticaba quando era pequenina."
Lá se vão mais de trinta e quatro anos desde a minha iniciação na literatura brasileira para crianças, feita no então Centro de Ensino Integrado Pedro II, o Cenip, colégio público de Petrópolis. Lembro que um must da minha infância foi o "Gato Malhado e Andorinha Sinhá", de Jorge Amado, que já tratava do relacionamento entre seres diferentes. De resto não me recordo de muitos livros, à época que tivessem temática assemelhada. Talvez por isso louve tanto a autora nessas linhas.
No entanto, não creio que nenhum aluno de escola pública precise ler o livro de Ana Maria Machado para chegar à conclusão de que a cor da pele ou a origem social são (ou deveriam ser) absolutamente irrelevantes nas relações interpessoais. Se compartilhar a carteira (e muitas vezes a cadeira) com o outro não chega a ser construtivo do ponto de vista didático, do ponto de vista humano mostra que a tolerância com a diferença é impositiva na vida.
Espero que a minha loirinha, aluna de uma cara escola particular desta ilha da fantasia que chamamos de Capital, também não tenha precisado do livro da Ana Maria Machado para concluir isso, apesar de na sua sala não haver nenhuma pessoa negra. Pelo menos sempre fiz questão de relembrar a ela a sua origem "vira-lata" - bisneta de uma negra pelo lado paterno e uma alemã pelo lado materno, entre outras miscigenações familiares que não vêm ao caso. Tomara que ela tenha aprendido essa lição de casa.
quarta-feira, 13 de junho de 2007
EDUCAÇÂO AMBIENTAL
Falando em Rádio JB AM, coincidentemente, ontem tive o prazer de reencontrar André Trigueiro, que também dividiu comigo as agruras da redação, antes dele ir para a Globo News e eu me exilar em Brasília. Ele fez uma brilhante palestra no seminário sobre mudanças climáticas organizado pela Secretaria de Acompanhamento e Estudos Estratégicos do Gabinete de Segurança Institucional. Além de apresentador do Jornal das Dez, Trigueiro é o produtor e apresentador do "Cidades e Soluções", um programa sobre meio ambiente que chega agora ao canal educativo Futura. O programa é uma verdadeira aula sobre educação ambiental e excelente ferramenta para os professores que quiserem abordar o tema em sala de aula. Na Globo News, o programa é exibido aos domingos, às 21h30; no Futura, às sextas, a partir das 21h. O link para o site do Trigueiro, onde estão disponíveis edições anteriores do "Cidades" é http://www.mundosustentavel.com.br/globo.asp.
CAI NO VESTIBULAR?????
Meu antigo chefe de reportagem na falecida rádio JB AM, Luiz Alberto Sanz, me indica um link bem interessante sobre educação. Trata-se do portal http://www.educacaopublica.rj.gov.br/, do governo do Estado do Rio de Janeiro.
Fuçando na biblioteca do portal, achei um artigo brilhante da antropóloga e professora Miriam de Oliveira Santos. Vejam só um trecho: " Não precisamos de que nossas matérias sejam cobradas no vestibular para legitimá-las. Seu valor não deve ser pragmático, mas humanista. Atualmente, tudo se mede em dinheiro e no diferencial que pode agregar ao seu currículo na hora de procurar emprego: faz-se intercâmbio não para conhecer outra cultura, mas porque é bom para o currículo, pratica-se o voluntariado não por ímpeto de ajudar ao próximo, mas porque é um diferencial na hora da entrevista, mantemos contato com os amigos porque é importante manter uma network na hora de procurar emprego e assim por diante. Neste contexto, é importante manter matérias que aparentemente “não servem para nada”, mas que fomentam o debate e a reflexão. Pode até ser que nossos alunos nunca as utilizem na hora de procurar emprego, mas esse tipo de aula sem dúvida pode transformá-los em pessoas melhores." O texto integral está no link http://www.educacaopublica.rj.gov.br/suavoz/sv39.htm". Confiram
Fuçando na biblioteca do portal, achei um artigo brilhante da antropóloga e professora Miriam de Oliveira Santos. Vejam só um trecho: " Não precisamos de que nossas matérias sejam cobradas no vestibular para legitimá-las. Seu valor não deve ser pragmático, mas humanista. Atualmente, tudo se mede em dinheiro e no diferencial que pode agregar ao seu currículo na hora de procurar emprego: faz-se intercâmbio não para conhecer outra cultura, mas porque é bom para o currículo, pratica-se o voluntariado não por ímpeto de ajudar ao próximo, mas porque é um diferencial na hora da entrevista, mantemos contato com os amigos porque é importante manter uma network na hora de procurar emprego e assim por diante. Neste contexto, é importante manter matérias que aparentemente “não servem para nada”, mas que fomentam o debate e a reflexão. Pode até ser que nossos alunos nunca as utilizem na hora de procurar emprego, mas esse tipo de aula sem dúvida pode transformá-los em pessoas melhores." O texto integral está no link http://www.educacaopublica.rj.gov.br/suavoz/sv39.htm". Confiram
segunda-feira, 11 de junho de 2007
O UNIVERSO AUTOCONSCIENTE
Acabo de fechar as últimas páginas do livro “O universo autoconsciente”, do físico indiano Amit Goswami. Quem viu o filme “Quem somos nós” – What the bleep do we know – deve lembrar dele como o teórico que tenta unir física quântica ao misticismo hindu, com relativo sucesso. Ele postula a aplicação dos pressupostos quânticos (dualidade onda/partícula; ação não-local; interferência do observador no objeto observado; etc) para a resolução do antiqüíssimo dilema matéria/consciência que divide até hoje pesquisadores e filósofos.
As discussões teóricas do livro não vêm ao caso neste blog. O que me motivou a postagem foi a constatação de que, cada vez mais, físicos, matemáticos e cientistas diversos com formação hindu ganham destaque no cenário científico internacional com teorias ultra-modernas ou mesmo radicais, unindo filosofia e ciência de forma bastante inovadora.
Essa constatação me leva a um questionamento meio óbvio: será que tal fato se deve à formação educacional hindu, que abre espaço para a formação filosófica dentro do sistema educacional tradicional? A Índia ainda é muito influenciada pelos costumes ingleses e, pelo que pesquisei, seu atual sistema educacional deriva em muito do sistema britânico. No entanto, se há um setor em que os colonizadores foram definitivamente derrotados foi no que toca aos costumes tradicionais. Eles permanecem quase intocáveis na Índia, tanto para o bem como para o mal.
Andei pesquisando um pouco sobre a educação naquele país. O melhor site sobre educação na Índia que achei foi a página da wikipedia em inglês (http://en.wikipedia.org/wiki/Education_in_India). O gráfico mostra evolução do investimento em educação na Índia. Os valores estão em Rúpias, mas as barras dão uma boa idéia de como o setor evoluiu positivamente.

As discussões teóricas do livro não vêm ao caso neste blog. O que me motivou a postagem foi a constatação de que, cada vez mais, físicos, matemáticos e cientistas diversos com formação hindu ganham destaque no cenário científico internacional com teorias ultra-modernas ou mesmo radicais, unindo filosofia e ciência de forma bastante inovadora.
Essa constatação me leva a um questionamento meio óbvio: será que tal fato se deve à formação educacional hindu, que abre espaço para a formação filosófica dentro do sistema educacional tradicional? A Índia ainda é muito influenciada pelos costumes ingleses e, pelo que pesquisei, seu atual sistema educacional deriva em muito do sistema britânico. No entanto, se há um setor em que os colonizadores foram definitivamente derrotados foi no que toca aos costumes tradicionais. Eles permanecem quase intocáveis na Índia, tanto para o bem como para o mal.
Andei pesquisando um pouco sobre a educação naquele país. O melhor site sobre educação na Índia que achei foi a página da wikipedia em inglês (http://en.wikipedia.org/wiki/Education_in_India). O gráfico mostra evolução do investimento em educação na Índia. Os valores estão em Rúpias, mas as barras dão uma boa idéia de como o setor evoluiu positivamente.

Apesar de toda essa evolução, os autores dos artigos que li deixam bem claro que o sistema educacional indiano ainda tem muitas falhas, principalmente no que diz respeito à meta de erradicar o analfabetismo entre as crianças que, inclusive, é constitucional.
De qualquer forma, nomes como os dos físicos Chandrasekhara Venkata (C.V.) Raman e Jagadish Chandra; do cosmólogo Simon Singh ou do matemático Satyendranath (S.N.) Bose tornam bem claro que a educação indiana vem deixando um legado ao mundo que pode ser tomado como exemplo para o Brasil. E o livro de Goswin é uma prova irrefutável de que a combinação de educação científica e humanista pode trazer uma visão inteiramente nova da ciência no mundo moderno.
sexta-feira, 8 de junho de 2007
O SORRISO... (CONT.)
O filme me lembrou uma situação entre minha mãe e o pedagogo Lauro de Oliveira Lima, no início da década de 70. Ao finalizar um curso para professoras da rede pública do Estado do Rio, do qual minha mãe tinha participado, Lauro autografou um livro, tentando "sacanear" o seu ar intelectual. Ele escreveu: "Para Solimar, a cerebrotônica do grupo, que precisa fazer trabalhar mais a parte inferior do soma", deduzindo que ela era uma solteirona. A dedicatória lhe valeu uma reprimenda da minha mãe, que lhe revelou ser casada e mãe, apesar de não usar aliança. Na bronca, ela pediu que o professor deixasse seus conceitos pré-concebidos do lado de fora da sala, exatamente como havia pedido para suas alunas. Ele manteve o bom humor, mas acabou fazendo um mea-culpa para a turma. Durante anos minha mãe carregou a dedicatória como um troféu, para desespero do meu pai... O livro ainda deve estar lá em casa.
O SORRISO DA MONA LISA
O filme é de 2003, do diretorMike Newell, com Júlia Roberts, Kirsten Dunst e Julia Stiles no elenco principal. O enredo é centrado na passagem de Katherine Ann Watson, uma liberal professora de história da arte, por Wellesley, tradicional faculdade de artes feminina da costa Oeste dos Estados Unidos, na década de 50.
Ao tentar implementar uma pedagogia progressiva histório-crítica a professora se defronta com a oposição tanto da direção da escola como de algumas das alunas, apegadas ao método liberal tradicional. Ao longo do filme Katherine vence a resistência da maior parte das suas alunas, levando-as a um passeio pela arte moderna e contemporânea - um dos pontos fortes do filme é uma visita a um galpão onde estavam obras de Jack Pollock, polêmico pintor americano, atormentado por problemas mentais.
O relacionamento da professora com duas alunas, Joan Brandwyn (Julia Stiles) - uma brilhante aluna, incentivada por Katherine a se candidatar a uma vaga em Harvard - e Betty Warren - (Kirsten Dunst) que optou por tomar o caminho do casamento - dá o tom emocional ao filme, revelando também como o professor leva seus próprios conceitos pré concebidos para a sala de aula. Ao reverterem seus papéis, Joan - que acaba se casando e abandonando seus objetivos - e Betty - que se separa e resolve continuar os estudos - surpreendem Katherine, que acaba por constatar que a felicidade é subjetiva e pode estar em vários lugares diferentes para pessoas diferentes.
Este talvez seja o mote principal do filme, do ponto de vista didático. Quão difícil será para o professor deixar de lado seus valores e conceitos, introjetados ao longo de uma vida, para ensinar os alunos a formarem os SEUS próprios valores e conceitos? Não é muito mais confortável assumir uma postura de repassador dos próprios conceitos (normalmente alinhados com o da instituição de ensino)? Não é tão perturbador pensar que O OUTRO pode ser feliz e se sentir realizado de outra forma e que cabe ao educador apenas ajudá-lo a achar esse caminho? O rosto enigmático de Katherine, ao deixar Wellesley por não acatar as condições da renovação de seu contrato, dá a entender que não há resposta perfeita para essas questões.
O link http://neteducacao.globo.com/site/usenet/sorrisoMonaLisa_new.jsp traz uma análise interessante das possibilidades do uso desse filme em aulas. Vale conferir.
Ao tentar implementar uma pedagogia progressiva histório-crítica a professora se defronta com a oposição tanto da direção da escola como de algumas das alunas, apegadas ao método liberal tradicional. Ao longo do filme Katherine vence a resistência da maior parte das suas alunas, levando-as a um passeio pela arte moderna e contemporânea - um dos pontos fortes do filme é uma visita a um galpão onde estavam obras de Jack Pollock, polêmico pintor americano, atormentado por problemas mentais.
O relacionamento da professora com duas alunas, Joan Brandwyn (Julia Stiles) - uma brilhante aluna, incentivada por Katherine a se candidatar a uma vaga em Harvard - e Betty Warren - (Kirsten Dunst) que optou por tomar o caminho do casamento - dá o tom emocional ao filme, revelando também como o professor leva seus próprios conceitos pré concebidos para a sala de aula. Ao reverterem seus papéis, Joan - que acaba se casando e abandonando seus objetivos - e Betty - que se separa e resolve continuar os estudos - surpreendem Katherine, que acaba por constatar que a felicidade é subjetiva e pode estar em vários lugares diferentes para pessoas diferentes.
Este talvez seja o mote principal do filme, do ponto de vista didático. Quão difícil será para o professor deixar de lado seus valores e conceitos, introjetados ao longo de uma vida, para ensinar os alunos a formarem os SEUS próprios valores e conceitos? Não é muito mais confortável assumir uma postura de repassador dos próprios conceitos (normalmente alinhados com o da instituição de ensino)? Não é tão perturbador pensar que O OUTRO pode ser feliz e se sentir realizado de outra forma e que cabe ao educador apenas ajudá-lo a achar esse caminho? O rosto enigmático de Katherine, ao deixar Wellesley por não acatar as condições da renovação de seu contrato, dá a entender que não há resposta perfeita para essas questões.
O link http://neteducacao.globo.com/site/usenet/sorrisoMonaLisa_new.jsp traz uma análise interessante das possibilidades do uso desse filme em aulas. Vale conferir.
quarta-feira, 6 de junho de 2007
CRIANDO OPORTUNIDADES DE APRENDIZAGEM CONTINUADA AO LONGO DA VIDA
O texto é de José Armando Valente, do departamento de Multimeios da Unicamp. O autor defende uma nova visão sobre educação continuada, diferente da atual. Ele inicia sua argumentação afirmando que é impossível pensar hoje que a escola, por si só, dará conta de prover todo o conteúdo necessário para o aluno lidar com a sociedade do conhecimento. Desta forma a aprendizagem deverá se tornar uma atividade contínua, que acompanhe o indivíduo por toda a vida. Neste contexto, a escola se tornará apenas um, dentre muitos outros ambientes, onde será possível processar o aprendizado.
Para isso, será necessário, no entanto, que seja enfatizado no aluno o que ele chama de perfil "caçador-ativo", que já existe na criança antes da idade escolar. É nesta fase em que se manifesta a sede do aprendizado, mas de forma assistemática. Ao tentar sistematizar o conhecimento, as escolas tradicionais acabam transformando o aluno num "receptor-passivo", ou seja, num receptáculo de conteúdos que ali são enfiados pelo professor, numa espécie de via de mão única. E é justamente essa sistematização que impede o aluno de desenvolver habilidades contínuas de aprendizado.
O sistema de educação continuada proposto pelo autor se baseia numa espécie de triangulo. Num vértice está o desenvolvimento no aluno de uma predisposição permanente para o aprendizado; noutro, a disponibilização de um local onde os conteúdos a serem aprendidos possam estar disponíveis; e no último, a possibilidade permantente de o aluno ser orientado, pelo que ele chama de agentes de aprendizagem.
O próprio autor reconhece que há sérias dificuldades para a implementação dessa proposta. E entre elas - talvez a principal - está a própria escola tradicional. As instituições, da forma como hoje se apresentam, não contribuem para o estímulo da aprendizagem, consomem um tempo significativo da vida do aluno com conteúdos que dificilmente serão utilizados na prática e estão em descompasso com as exigências do mundo moderno. A escola é, portanto, um dos maiores empecilhos para a proposta de educação continuada por toda a vida, apesar de ser a instituição que mais se beneficiaria com isso.
Para isso, será necessário, no entanto, que seja enfatizado no aluno o que ele chama de perfil "caçador-ativo", que já existe na criança antes da idade escolar. É nesta fase em que se manifesta a sede do aprendizado, mas de forma assistemática. Ao tentar sistematizar o conhecimento, as escolas tradicionais acabam transformando o aluno num "receptor-passivo", ou seja, num receptáculo de conteúdos que ali são enfiados pelo professor, numa espécie de via de mão única. E é justamente essa sistematização que impede o aluno de desenvolver habilidades contínuas de aprendizado.
O sistema de educação continuada proposto pelo autor se baseia numa espécie de triangulo. Num vértice está o desenvolvimento no aluno de uma predisposição permanente para o aprendizado; noutro, a disponibilização de um local onde os conteúdos a serem aprendidos possam estar disponíveis; e no último, a possibilidade permantente de o aluno ser orientado, pelo que ele chama de agentes de aprendizagem.
O próprio autor reconhece que há sérias dificuldades para a implementação dessa proposta. E entre elas - talvez a principal - está a própria escola tradicional. As instituições, da forma como hoje se apresentam, não contribuem para o estímulo da aprendizagem, consomem um tempo significativo da vida do aluno com conteúdos que dificilmente serão utilizados na prática e estão em descompasso com as exigências do mundo moderno. A escola é, portanto, um dos maiores empecilhos para a proposta de educação continuada por toda a vida, apesar de ser a instituição que mais se beneficiaria com isso.
terça-feira, 5 de junho de 2007
Primeiro as primeiras coisas...
Este blog foi criado para atender aos requisitos do Curso de Didática do Ensino Superior da UniDF, mas nada impedirá que aqui sejam postados textos e comentários sobre os mais variados assuntos.
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