terça-feira, 19 de junho de 2007

MUITO ALÉM DAS COTAS

Mesmo antes da morte da Fernanda a tarefa de acompanhar os exercícios de casa da Júlia sempre foi parte do que me cabia no latifúndio do casamento. Depois que fiquei sozinho com as crianças fiz disso minha obrigação diária. Aliás, obrigação talvez não seja a palavra correta. Tenho prazer em acompanhar o dia a dia de estudos dela no terceiro ano, pois Gabriel ainda está no maternal e tem poucas tarefas. E uma das atividades que mais me encanta é a execução da "Ficha de Leitura" nos fins de semana.
Pois bem, no último domingo Júlia me apresentou ao "Menina Bonita do Laço de Fita", de Ana Maria Machado. O livro, como todos os outros da escritora infantil, é uma pequena obra prima, abordando a questão racial através do relacionamento entre uma menininha negra e um coelhinho branquinho, que inveja sadiamente a cor da pele dela. Daí as primeiras linhas do livro: "Menina bonita do laço de fita, qual é o teu segredo pra ser tão pretinha?A menina não sabia, mas inventou:-Ah, deve ser porque eu comi muita jaboticaba quando era pequenina."
Lá se vão mais de trinta e quatro anos desde a minha iniciação na literatura brasileira para crianças, feita no então Centro de Ensino Integrado Pedro II, o Cenip, colégio público de Petrópolis. Lembro que um must da minha infância foi o "Gato Malhado e Andorinha Sinhá", de Jorge Amado, que já tratava do relacionamento entre seres diferentes. De resto não me recordo de muitos livros, à época que tivessem temática assemelhada. Talvez por isso louve tanto a autora nessas linhas.
No entanto, não creio que nenhum aluno de escola pública precise ler o livro de Ana Maria Machado para chegar à conclusão de que a cor da pele ou a origem social são (ou deveriam ser) absolutamente irrelevantes nas relações interpessoais. Se compartilhar a carteira (e muitas vezes a cadeira) com o outro não chega a ser construtivo do ponto de vista didático, do ponto de vista humano mostra que a tolerância com a diferença é impositiva na vida.
Espero que a minha loirinha, aluna de uma cara escola particular desta ilha da fantasia que chamamos de Capital, também não tenha precisado do livro da Ana Maria Machado para concluir isso, apesar de na sua sala não haver nenhuma pessoa negra. Pelo menos sempre fiz questão de relembrar a ela a sua origem "vira-lata" - bisneta de uma negra pelo lado paterno e uma alemã pelo lado materno, entre outras miscigenações familiares que não vêm ao caso. Tomara que ela tenha aprendido essa lição de casa.

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