quarta-feira, 27 de junho de 2007

FREIRE E O EXISTENCIALISMO

Admito que sempre tive uma certa implicância totalmente imotivada por Paulo Freire. Talvez, à moda rodrigueana, por não admitir unânimidades; talvez por tanto ter ouvido dele nas aulas que minha mãe preparava para as suas pobres alunas do então curso "Normal". Qual não foi, portanto, minha surpresa ao abrir as páginas de "Pedagogia da Autonomia - Saberes Necessários para a prática educativa" e encontrar uma faceta de Freire que eu jamais havia ouvido falar: a do existencialista.
Para quem entrou agora no ônibus, o Existencialismo foi (é) uma doutrina filosófica que predominou na Europa do pós-guerra, com origens nas obras de Kierkegaard e Heidegger, tendo seu ápice na literatura de Jean Paul Sartre. A doutrina prega que o homem chega ao mundo de forma inacabada e, através da sua existência, constrói a sua essencia, aquilo que o torna humano. E essa construção se dá justamente por estar no mundo, em conflito com o outro. O homem é, assim, o ponto de partida e de chegada de toda reflexão existencialista.
Na "Pedagogia da Autonomia" Freire encampa algumas das teses existencialistas (pesquisando descobri que estão presentes também na "Pedagogia do Oprimido"). Por exemplo, ao falar da importância, para o ato de ensinar, dessa consciência do inacabamento do ser, o educador ressalta: " A consciência do mundo e a consciência de si inacabado necessariamente inscrevem o ser consciente de sua inconclusão num permanente movimento de busca". Ao discorrer sobre ética, diz: "...falo dá ética universal do ser humano da mesma forma como falo de sua vocação ontológica para o ser mais, como falo de sua natureza constituindo-se social e historicamente não como um "a priori" da História".
A partir da constatação de que o Existencialismo foi marcante na obra de Freire em questão, resolvi fazer uma pesquisa e dei com um excelente trabalhinho dos professores Abdeljalil Akkari, Peri Mesquida e Regina Valença, publicado na Revista Diálogo Educacional, de Curitiba, chamado "Prolegômenos para uma prática educativa existencialista". No texto, os autores identificam aquilo que seriam as implicações dessa doutrina para a reflexão e a prática pedagógicas. Num resumo breve, diríamos que, numa abordagem pedagógico-existencial, o aluno, sendo um ser em construção, se torna o centro da ação pedagógica, que deve respeitar a sua individualidade. Cabe ao professor estabelecer um diálogo com o "outro" - aluno - ensinando-o a usar sua liberdade para escolher como deve aprender. O estudante se transforma assim, de espectador, em ator do drama da aprendizagem.
A conclusão do artigo é que o pensamento existencialista está presente na teoria freiriana da educação, não de forma pura, mas mesclado com idéias da fenomenologia e da diálética marxista.
É possível fazer um download da "Pedagogia da Autonomia" e de outras obras de Freire no site www.sabotagem.revolt.org e o artigo sobre a educação existencialista está disponível em http://www2.pucpr.br/reol/index.php/DIALOGO?dd1=805&dd99=view. Para uma visão crítica sobre as posições de Jean Paul Sartre em relação à educação, recomendo o excelente artigo de Bonnie Burstow, "A filosofia sartreana como fundamento da educação", publicado em
http://www.scielo.br/pdf/es/v21n70/a07v2170.pdf .

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